quarta-feira, 13 de abril de 2016

Senta,que lá vem"estória"! Do Projeto,Uma Alma Masculina ... O Pensar de Julião.( E,música de apoio ao texto.)

O burrinho empacou na cerca.
Pareceu-me adormecido até.
Sábio,buscou a sombra de uma gigante mangueira.
Os ventos pareciam ter corrido tanto sem destino,que esqueceram deste lugar.
Calor insuportável.
Ela colocava roupas nos varais ... nem brisa a lamber o seu suor.
Não perdera a beleza,mesmo tendo pele judiada.
Jorrava dela,uma alegria imensa,ao cantarolar suas modinhas.
Assim Tereza,minha madrinha.
Fechei o livro e perdi meu olhar na distância.
Queria-me menino a correr aqui e ali,como dantes.
Brincar de caças às borboletas ... fieira na mão,na jogada do pião ...
(Que girava e girava e girava ... fazendo rombos no chão.)
No tomba-bolinhas,as de gude,que guardava,qual tesouro.
Nas corridas dos cavalos invisíveis,travando lutas,ganhando batalhas...
E quando bexiga apertava,mijava gostoso no pau do celeiro.
Mãe dizia: -não mija no riacho!
Eu,obedecia.
Voltei,um filho pródigo,desobediente.
Mãe e pai já se foram aos Céus.
To aqui,qual burro empacado,mas sabido.
Dorso na sombra,na fortuna de pai.
Estou já cansado desta pasmaceira toda.
Amanhã vou à cidade ...
Que nada a fazer tem.
Que diacho!
Deveria ter voltado não!
Tereza trata-me como menino ainda.
Um dia ela também vai-se embora ... é bem isso.
Até padre Julio já se foi ... e tem lá um padre moderninho,que canta e inventa rezação.
Que diacho!
Não gosto disso,não!
Tem Gracinda,que casou ...e com a penca de filhos que arranjou ... nem cá aparece.
Carrapato,meu grande amigo,foi pra Tambaú.
A vendinha do Cosme,tá lá lacrada.
Disseram-me que escafedeu-se no mundo.
Rabo de saia.
Deixou fios e muié.
Que diacho!
Tô jurando de pés-juntos,vou-me embora,pra de onde, nem deveria ter saído.
Volto lá,pra Morros Altos.
Lá tem Luzia... a meiga Luzia ...
Lá tem ventos nos meios-dias.
Cortinas que balançam ...e janelas,que não cansadas de bater.
Vida, que passa entre frestas.
E um sorriso que me enebria ...
Só aqui fico,por mais um dia.
Somente mais um dia.
O canto da passarada,levarei na saudade...
E quando apertar,desconto no dedilhado de minha viola,a música de outrora,que junto a pai na sanfona,chorava som-encantado ... Luar Do Sertão.
Olho daqui de longe o bananal ... e,bem naquele coração,de um cacho,finco também o meu.
Pai,mãe,vão me desculpando! 
Vou-me,amanhã,cheio das lembranças ... e levo comigo,somente as bolas-de-gude,encantadas.
Pra nunca perder sonho e brilho.
Resolvido.

Julião Pimenta lopez Garcia.

(Do Projeto,Uma Alma Masculina, por Tata Junq)


( Música de apoio ao texto ...e homenagem a Tonico e Tinoco...#musicatudodebom )
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