sexta-feira, 1 de abril de 2016

Em pauta,Charles Baudelaire. Apreciem:Tédio.

TédioTenho as recordações d'um velho milenário! 

Um grande contador, um prodigioso armário, 
Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais, 
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais, 
Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo. 
Meu cer'bro faz lembrar descomunal jazigo; 
Nem a vala comum encerra tanto morto! 

— Eu sou um cemitério estranho, sem conforto, 
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos, 
Atacam de pref'rência os meus mortos queridos. 
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas, 
Onde jazem no chão as modas despresadas, 
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher 
Fuem o doce olor d'um frasco de Gellé. 

Nada pode igualar os dias tormentosos 
Em que, sob a pressão de invernos rigorosos, 
O Tédio, fruto inf'liz da incuriosidade, 
Alcança as proporções da Imortalidade. 

— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente, 
Do que granito envolto em terror inconsciente. 
A emergir d'um Saarah movediço, brumoso! 
Velha esfinge que dorme um sono misterioso, 
Esquecida, ignorada, e cuja face fria 
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia! 

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães 
Obtido em Wikisource
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