terça-feira, 18 de agosto de 2015

Do Projeto,Uma Alma Feminina,A Voz de Maria José.



                                      (Fotos,pesquisadas no Google.)


De tanto amor... esqueci as indiferenças.
Assim resistente?
Incoerente?
Sentada nesta cadeira,observo a lentidão dos demais.
Minha mão também não está segura ...treme, e é difícil ainda manter as escritas.
Mas faço esse exercício,todos os dias.
É na verdade,minha alegria e tristeza também.
Os idosos,no outro pátio,estão ao Sol,mas parecem absorvidos em pensamentos.
Uns são possuidores de olhares vãos,distantes,alienados.
Vejo a Maria,enfermeira dedicada,falando sei lá o quê e os ajeitando.
Hoje não teve uma visita,sequer.
Eu penso nos abandonos.Eu aqui resmungando,como sempre.
Desde que Romeu foi para o Canadá,que não vejo,sequer um sobrinho ou neto.
Certamente,vivem.
Vivo,sem esperar muito dos outros.
Resisto num tempo,que julguei jamais passar.
Mas cá estou.
Pela janela escancarada,a pedido meu,posso ver o movimento lá fora.
Andar não dá,minhas pernas ficaram esquecidas,desde aquela manhã de outubro,quando apaguei na cozinha de casa.
Desde então,soube o que era limite.
Hoje,escrevo minhas memórias,a família diz que vai publicar,meus escritos.
Sorrio com desdém.
Uma maneira que resolveu-se,para aliviar a falta das proximidades,como se a me compensar.
Quanta tolice e insensatez!
Que queimem tudo,num fogaréu!!!!
Não vi o jardineiro nesta semana ... andava adoentado.
Será que piorou?
Ou é uma contenção de despesas por aqui?
Mas as rosas nascem lindas,a cada manhã. Que mão abençoada a dele.
Mas ninguém as toca ... tão prazeroso deve ser tocá-las,sentir seus perfumes ...
Posso vê-las ... gosto das brancas.
Vou pedir pra adornarem meu caixão,com rosas brancas... e,que cubram bem essas minhas pernas atrofiadas e já mortas.
O que será que teremos para o almoço?
Que não seja aquele feijão aguado.
Saudade da minha galinhada,ou da Estela,minha irmã.
Saudade do tutu,da mamãe.
Saudade da minha família.
Saudade da minha infância ...das corridas até o lago ... saudade de minhas perninhas compridas e ligeiras.
Saudade do Gren,meu louco irmão,que morreu tão jovem.
Saudade da alegria de minha mãe,antes dele ir.
Saudade da força do pai,que diminuiu também.
Saudade do meu companheiro,amante e amigo,Guilherme,de todos os dias de nossas vidas,juntos.
Saudade que invade meu peito,que dói.
Ando cansada. Os médicos,dizem que estou bem.
Visitam-nos,todas as semanas ... mas vão dizer que não estamos bem?
A grande maioria tem o pé na cova ...
Creio que logo estarei numa.
Não sofro,só me apiedo dos abandonados,inclusive,eu.
Apiedo-me.
Aí,olho pras rosas ...e sinto o gosto da vida,brotando a cada manhã,numa suavidade impressionante.
E me engrandeço,então.
Crio pernas.
Crio luz própria.
Creio em Deus.
Creio no Céu que vai me abrigar.
Creio nos reencontros,como fossem as festas de São João,fartas,quentes e felizes.
Ahhh...se as rosas pudessem me ouvir agora ... diria,obrigada,por serem o encanto do viver,
sem pranto.
Não colheria nenhuma sequer.
Eu as vejo em botões,quando abrem-se,quando murcham,quando secam aos poucos,perdendo o viço.
Criaturas como nós aqui neste castelo dos velhos.
Nesta semana houve uma baixa,nesta luta final.Sebastião não se despediu,dormiu pra sempre.
Assim é,assim será.Todos iremos,outros aqui chegarão.
À princípio terão algumas visitas ... depois o esquecimento,dos outros e das dores das ausências.
Chove agora ...
O dia acinzentou,ficou triste.Mas as rosas estão felizes,com gotas pendentes.
Não choram como eu,sem chuva na cabeça.
Não choram de saudade.

Maria José
( Do Projeto,Alma Feminina.)
Tata Junq



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