segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Projeto,Crônicas Esparsas. Uma memória.

( Imagem retirada do Google,meramente figurativa.)

*******************Uma Memória***********************************

Como não falar das folhas mortas ao chão?
Do farfalhar delas,ao serem pisoteadas?
Desdenhosamente,pisadas,sem dós e piedades?
Perdeu-se o senso?
Aqueles passos apressados,em ritmo largo,queriam chegar logo,cortaram caminho,pegaram atalhos.
Chegaram à rua principal.
E, na cegueira da pressa,estancaram.
E no corre-corre,agora de desconhecidos,tentavam resgatar aquele corpo,inerte.
Alguns,curiosos,apenas.
Outros pararam ao verificar a cena grotesca:um crânio semi-amassado,pernas visivelmente partidas,tamanho fora o impacto do ônibus.
E,sangue. Muito sangue e folhas,oriundas de seus pés.
Estranha sensação ...folhas mortas arrastadas e um semi-morto ao chão.
Na pressa a desatenção.
Fico perguntando-me ...que pensava ele,por que tanta pressa em chegar?
O resgate levou tempo a chegar e a padiola sustentou seu corpo,que já não sei, se sem vida.
O frio daquela manhã,tornou-a gélida demais.
As folhas continuaram a se espalhar com o vento,mortas, ao chão.
Divino ciclo, no entanto,dando lugar às novas,que surgirão.
Quanto ao moço,que nem nome sei,teria uma família? Não seria mais gerador de vidas,ou seria?
Com as pernas bambas,ainda ...olho o caminho que percorremos,ficou lá trás.
 Cheguei no meu ritmo lento e cadenciado,bengala à mão,limitado.
( Também tive muitas pressas na vida ...)
Destino trágico,por diferenças de minutos,ele foi embora e eu fiquei.
Nada justo!
Havia tanta vida pra ele...e a minha estava no fim.
Nem sequer pude me revoltar, mas doeu tão fundo,que sentei-me no banco,do abrigo,de espera aos ônibus,e copiosamente,chorei.
Ninguém percebeu, estavam ainda  em choque, diante da tragédia.
Mal sabiam da minha, e de meus dias contados ...
Também não sou raiz,nem tronco vivo,já sou folha morta.
( Decretada.)
Escuto claramente os sinais da sirene,pedindo passagem ao longe,na ânsia de polpar uma morte.
Na verdade,apita a vida aqui e ali,em meio à multidão formada.
Eu aqui parado,agora olhando pro nada, penso na Jorgina, que já se foi,em todos que já enterrei.
Meus pés também carregam folhas mortas.
Logo tive companhia.
Ironicamente, mais um velho aprochegou-se.
Nem ousei prosa.
Era a figura viva, de mais um morto.

( Memória de um dia. //  Sebastião Marques Arruda Paiva Neto)
Tata Junq
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