segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ao velho, com respeito e amor..



Hoje, ao ultrapassar a porta da sala, da casa simples, de aluguel, mas bem cuidada ... vê-se o velho, na cama improvisada. Não há lógica, não há nexo ... cama na sala ... decerto para alguém estruturalista de ambientes. Há lógica, há nexo, no contexto da vida e é o que se estabelece nesta casa simples.
O quadro visionário, arquétipo, é o de muitos velhos, que hoje sobrevivem a um holocausto governamental, somos um país, "já "de 4º mundo.
É um velho que precisa de cuidados, que poderia ser assessorado de forma humanitária, porque fêz, contribuiu para o crescimento de uma geração. Só não fêz mais, por delimitações, que a própria sociedade brasileira, sempre impôs a um homem simples, de vida simples, de sacrifícios, de partilhas ... e lutas contra a fome, a miséria, tentando ser sustentáculo da família , lutando pela comida na mesa, pelo dinheiro do aluguel ... somando, sempre, destribuição de renda familiar. Deu poucas chances de estudos aos filhos, mas na imagem deste velho está implícito o seu trabalho simples e árduo de um pintor de paredes e quebra-galhos como servidor de pedreiro em algumas empreitadas simples ... piso, calçadas ...nesta imagem, o homem que cuidou de uma esposa doente, que cozinhou, que limpou casa ... nesta imagem, o homem que muito bebeu ... e de muitos porres e desestruturação ... nesta imagem, o doente que correu para hospitais e médicos e ... que achou vaga, em hospital" pago", diga-se de passagem ... nesta imagem, o homem que hoje depende de um filho, que vive momentos recessivos neste país embriagado e desordenado. Hoje este homem não poderá ir à hospitais pagos. O tratamento feito é delicado, como as finanças que por hora, somamos ...vezes em desespero, pensando que poderá ficar mais comprometido por não podermos assessorá-lo financeiramente.
A imagem é de fragilidade. Por momentos ele fica pensativo, passado, por tantas dores e medos ... turbilhões em sua mente, mistura de pensamentos ... passado, presente e futuro incerto.
Até quando, esta imagem triste e desolada, não sei.
A cada momento, quando atravesso o portão, adentro àquela porta simples, azul, espero não sei o quê.
Hoje ele não sorriu, nem quando brinquei com ele. Fiz aquela barba espinhosa e branca...a matéria não ajuda. Seu semblante é cansado, desanimado. Seu íntimo chora.
Aquele rosto magro, aquele corpo magro, canceroso, trombosado, está declinando. É misto de dor, desânimo e cansaço. Antes havia luta, hoje, resignação.
Este velho cansado e dolorido, poderia ser meu pai, mas não é. Sou sua filha , mesmo assim ... como sou de muitos velhos cansados, que precisam de solidariedade humana.
Desta imagem , brota a imagem de uma parcela da velhice desestruturada deste país.
Hoje, o poder arbritário, corrupto, está em campanha, não a da fome, a da família, a do menor carente ... visa uma campanha especial, a da subida ao poder, novamente ... e "domínio" do país, através da presidência.
" Por que será, que querem ser presidentes?"
Amanhã, depois, veremos o mesmo quadro: _ um país falido, corrompido, cheio de misérias ... veremos velhos como este, senão esse, outro portanto, em semelhança desesperadora. Velho que sonhou moço. Veremos moços que sonharam ,crianças. E crianças que nem sonharam ainda.
Porque, neste país ufano e lindo, o povo sonha sempre e acorda na amargura da mediocridade política-social mal empregada, mal destribuída.
Haverá um dia de sorriso e bem-estar na boca do povo sofrido deste país?
Num amanhã não muito distante, uma boca ficará mais muda que esta , agora. Os olhos cerrar-se-ão de vez, sem ter desfrutado de uma velhice com dignidade.
Espero, nesta imagem fúnebre, tétrica, o remontar de um sorriso, da criança, que acorda agora para o mundo. Quem sabe, esta terá orgulho em fazer uma crônica sem denúncias, desse país, já passado a limpo.
Quem sabe a imagem de um velho, seja refletida com a naturalidade da morte, sem pesares ... Que não haja pêsames e luto, também a este país!


**** Este texto é de 08/03/1994 ... cabível aos nossos dias?
O que mudou?
Deixa eu ver ... o ...., o ..., o... quê mesmo?!
tata junq

**** Este querido "velho" a quem me referi, foi meu sogro,meu pai ...
e sempre me considerou sua filha "legítima".

**** Continuo indignada!

Tata Junq
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